Entrevista #Comapalavra: Raul Zito

Atualizado: Mar 16

Raul Zito é um dos grandes nomes da arte de rua brasileira. Com seus murais híbridos monumentais, mesclando fotografia, colagem e pintura, Zito cria portais pelas cidades, que nos transporta para além. Nos faz refletir sobre a vivencia urbana, ancestralidade e resistência.



Você iniciou sua trajetória nas artes, bem novo, em 1997. Este início já se deu fazendo algum tipo de trabalho nas ruas ou era uma atividade em casa/ateliê? Você já tinha algum estímulo para as artes quando criança?

Eu já tinha pichado uns muros alguns anos antes, com doze para treze anos. Com quinze anos desenhava na aula, sempre pensando em levar pra rua, pois nessa época fiz meus primeiros acessos na internet pra ver graffiti gringo e fiquei pirado. Daí os primeiros ataques de graffiti e pixo pela crew GNOMOS. Foram uns dez anos de atuação nesse coletivo em São Paulo que me despertaram para as artes.

E quando entra a fotografia na sua história?

Por influência do meu pai que é fotojornalista, tive contato desde o berço. Tive acesso a uma câmera Nikon FM2 e também à várias técnicas. Comecei a trabalhar com fotografia aos dezessete, como assistente, e aos poucos clicando. Mas demorei anos para começar a desenvolver alguma poética visual. E nesse tempo o graffiti e a fotografia andavam em paralelos. Só por volta de 2007 que comecei a arriscar ampliações para colocar na rua, o impulso inicial foi de tirar os negativos da gaveta e soltar no mundo, mas sem a roupa apertada das instituições de arte.


Você define seus trabalhos como murais híbridos. Como eles surgiram? Porque você decidiu mesclar as técnicas de colagem e pintura?


Quando conheci melhor os muralismos latino-americanos eu deletei intencionalmente aquela influencia yankee. Principalmente por encantamento ao conteúdo político dos murais mexicanos, equatorianos e cubanos. Realmente um gosto pelo processo de pintura e colagem — alterar, modificar, expandir. Muito me interessa as fusões de linguagem. Trabalho com música também, teatro e audiovisual. Hoje o que mais gosto é diluir meus trabalhos em outros caldeirões, colaborativos, deixar se contaminar. É uma necessidade meio mutualista — de líquen.



Estes murais têm como ponto de partida a escolha de uma foto do seu acervo e, depois, passando por várias etapas até a execução do mural. No final de tudo isso há o registro fotográfico do trabalho, que para mim são fotos igualmente belas. Este registro é tão importante quanto o trabalho em si?

Eu sempre produzo imagens pensando na criação de murais. Pra mim o que importa é o ao vivo, a intervenção, a arte pública. Os registros são para essa parte menos importante que é a divulgação. Mas capricho neles porque gosto de ampliar o alcance dos trabalhos e poder tocar pessoas em geografias diversas. Mas também poder publicar em outras mídias, livros por exemplo.

Acho o contexto urbano dos trabalhos bem importante, então curto registrar com algo que dê a dimensão e a particularidade do local.


O eixo África-América Latina, a pesquisa etnográfica e a simbologia afro-brasileira possuem um peso grande na sua obra. Fale sobre sua relação com estes temas.


Falo sobre (minha) fé, sobre religar, sobre coexistência, sobre simbologia — que hoje vejo também como arquétipos universais. Os símbolos pra mim são portais. São supra-humanos, e tem a função da cura. As imagens são ‘duplos’, não representações estéreis.

Comecei a tratar desse assunto nos meus trabalhos num longo processo — infinito — de autoconhecimento, depois que, por volta de 2003 conheci na Bahia alguns lugares e pessoas sagradas. Foram meus primeiros contatos com algo que eu pude chamar de sagrado. Quando o Ifá me deu licença, senti verdade e vi uma importância política em colocar esse sentimento na rua. Hoje ainda faz sentido, mas estou em retirada. Atualmente há um tsunami de consciência mais do que legítima, urgente e necessária e, por mais verdadeiro que seja meu intuito, tenho que tratar de outros assuntos relativos, mas indiretos, por respeito ao momento e à voz dxs protagonistas da própria história — o povo preto, no caso. Isso não significa que eu vou vestir a ‘culpa branca’ e fugir da cena, continuo minhas pesquisas e minhas práticas, mas preciso falar com dignidade desde o lugar onde está minha identidade — de acordo com as novas consciências que têm surgido a todxs xs que estão atentxs.


Hoje estou em direção de atuações que articulam pessoas de diferentes geografias e linguagens, minha intenção é fortalecer a rede cultural na América Latina, para a libertação da América, pensar a efetividade das artes para descolonização, e isso envolve união, e principalmente a consideração aos processos de arte-educação libertária. Ou seja, as artes com postura anti-estabelecido, junto às bases, para emancipar e gerar autonomia.


Você está com uma exposição em Lisboa explorando a simbologia afro-brasileira. Conte-nos um pouco dessa experiência e da recepção do seu trabalho além mar.


Levei pra Portugal um recorte dessa pesquisa que venho fazendo há pelo menos uns cinco anos sobre o oculto, sobre o mistério. Realmente tem muita África ali. Eu quis mostrar para os portugueses a beleza e a força do que chamamos afro-brasileiros. Porém não há nada de antropológico analítico ou o sentido de ‘explorar’, há na verdade a intenção é de confundir, encantar, aproximar e não rotular ou estereotipar a fé de ninguém, muito menos utilizar a fé pra separar os povos. Por exemplo: eu me peguei explicando pra alguém as semelhanças entre Virgem Maria e Yemanjá, que na verdade podem ser versões do que alguns chamam de ‘arquétipo universal da Grande Mãe’, presente em diversas culturas com diferentes nomes para uma mesma força natural.


Quando se fala de lambe-lambe, é comum associar a técnica à repetição massiva de uma imagem ou texto, mas você utiliza de outra forma. Normalmente seus trabalhos são de larga escala e poucas repetições. Como se dá sua relação com a produção na rua?


Gosto de fazer um trabalho por vez, dedicado a aquele lugar específico, mas eu adoro a reprodutibilidade viral. É que gosto também da diferença na repetição, então eu até repito, mas testando algo diferente. Gosto de correr o risco do improviso. Gosto do tosco — do xerox. Nunca gostei de arte fina — mas acabei de fazer uma exposição em arte fina, ou seja, cair em contradição é materializar a dignidade do ser que se sabe incompleto e com sede de aprender.

Mas algo que faz sentido pra mim é o termo ‘expandido’, chamo o que faço de ‘fotografia expandida’. Isso porque ela só funciona em tamanhos grandes, e também porque gosto de extrapolar seus limites. Um tempo atrás eu fritei uma foto que tinha colado numa chapa de ferro. Fiz um processo de revelação por fritura num fogão industrial, com barriga de porco. A foto ficou reagindo por duas semanas depois sumiu.



Após o fechamento da entrevista, Zito nos enviou este link sobre sua mais recente exposição-intervenção no Centro Cultural Tendal da Lapa.


Para saber mais sobre o artista, nós recomendamos uma visita ao seu site, esta entrevista concedida para o Catraca Livre e este artigo no site Os Brasis.



O Lambes Brasil é um canal independente. Feito por e para artistas com o propósito de fomentar e valorizar o lambe-lambe no contexto da Arte Urbana Brasileira, fortalecer o cenário aos artistas e produtores, gerar reconhecimento da técnica e prática artística perante o público, o mercado, os órgãos governamentais, empresas, entidades culturais e demais linguagens artísticas.