Movimento Urbano de Resistência e Arte do Lambe: Festival M.U.R.A.L

Conversamos com o artista Tacio Russo, um dos organizadores do Festival MURAL, que aconteceu em Recife (PE) entre 28 e 31 de agosto no Museu Murillo La Greca


Explica pra gente o que é, o que norteia e quem está por trás do

Festival MURAL?

O Festival M.U.R.A.L (Movimento Urbano de Resistência e Arte do Lambe), é o 1º festival internacional de lambe-lambe de Pernambuco, tendo sua 1ª edição no Museu Murillo La Greca, na cidade do Recife, com a temática “Pedra, papel e tesoura: dispositivos de atravessamentos em tempos de guerra.”



Foto: Ilana Costa

O Festival parte da necessidade de artistas de lambe-lambe se juntarem para discutir, criar, e formar outrxs artistas. Pensando o lambe como uma potência de ação direta dentro do cenário urbano, o festival ainda tem como objetivo dialogar sobre os possíveis desdobramentos e atravessamentos causados pelo lambe no cotidiano. Assim, Eu e o Filipe Gondim, convidamos a Anne Souza, o Mario Bros e o Alberto Pereira para conversarmos e criarmos esse espaço. A ideia era que ao mesmo tempo que afirmássemos a existência de coladorxs e criadorxs de lambe no estado também pudéssemos pensar como essa arte pode ser um lugar de resistência e de revide as opressões diárias.


E como surgiu a vontade e a formação para fazer nascer esse festival de lambe em Recife?

O Festival M.U.R.A.L emerge como um afirmador de uma prática de arte urbana já bastante utilizada em Pernambuco. Por conhecermos artistas de lambe da cidade e percebermos a curiosidade e o fascínio das pessoas para essa arte, e, ao mesmo tempo acompanhando o crescimento dessa prática e do reconhecimento dela enquanto arte em todo o país, resolvemos fazer um evento em que pudéssemos potencializar, formar e discutir nosso lugar enquanto artistas de lambe.


A cultura nas mais variadas formas é viva em Recife. Ela se manifesta a todo tempo. Como vocês enxergam a potência do lambe dentro dessa multiplicidade cultural?

O lambe trafega em Recife há décadas. Alguns artistas iniciaram seus trabalhos com o lambe e agora possuem reconhecimento e ocupam galerias. A arte do lambe nunca parou de fato na cidade, talvez alguns hiatos, mas sempre tem algo que nos provoca a olhar e pôr coisas nos muros. Como na cena múltipla de Recife, o lambe-lambe aqui possui várias técnicas, encontramos desde ilustrações manuais a colagens, textos e etc. Tudo reflete a danação de coisas que somos atropelados nessa cidade.


Voltando ao Festival, como foi levar o lambe para dentro de um Museu? Como se deu esta locação no Museu Murillo La Greca?

Já estávamos escrevendo o projeto quando o La Greca abriu uma convocatória de ocupação de espaços. Precisávamos de um espaço para receber o festival e, pelo menos nessa 1ª edição, a ideia foi correr e conseguir executá-lo na marra. O Festival foi aprovado nessa convocatória, como sabemos, e o resultado nos surpreendeu muito pelo engajamento e a aproximação de artistas da cidade com o festival. Claro que, por ser um museu, um espaço há muito tempo negado pra gente, e ainda para a arte urbana, houveram algumas dificuldades por termos a compreensão do que estávamos fazendo, onde estávamos fazendo e para quem estávamos fazendo. É legal ter um festival de arte urbana organizado por artistas da urbe dentro de um Museu, é importante, é quase uma vitória e coisa e tal, mas há nosses iguais, quem sangra e corre junto, que talvez não saiba chegar naquele lugar, que até sente a necessidade de chegar, mas fica com o pé atrás por todo peso histórico. Pelo menos, ou peso a menos, conseguimos transbordar o Festival para uma comunidade bem ao lado do Museu, a Vila Vintém, lá foi nosso segundo polo.


O resultado das oficinas fluíam pra lá, nossas conversas no fim do dia, nossos almoços e nossos momentos de lazer. Tanto que, ao final do festival conseguimos realizar o segundo mural de lambe no conselho de moradores do Vintém. Esse transbordamento foi bem feliz pra gente.



Vila Vintém | Foto: Filipe Gondim

Vocês planejaram por muito tempo? Conta aí como foi essa articulação.

Eu e o Gondim já vinhamos planejando e conversando sobre desde o final de 2018, começamos a escrever em Março de 2019 e em Abril inscrevemos o projeto na convocatória. Um pouco depois convidamos a Anne Souza, o Alberto Pereira e o Mario Bros para conversarmos e executar esse bang. Passamos cerca de dois meses de pré-produção. Todo mundo muito feliz de realizar um evento desse porte na cidade.



E quais foram os principais desafios em cada etapa?

O desafio-mor foi não ter grana (risos). Então algumas ideias nossas tiveram que morrer, como por exemplo uma ideia de mediação de levar a favela pro museu. Quando se organiza um bang desse tamanho você precisa de estrutura, ficávamos entre o encantamento de fazer uma coisa linda e a impossibilidade de fazê-la de forma extraordinária (risos). Durante o evento havia sempre a preocupação com o bem estar das artistas convidadas, de ter tudo o possível para a realização das oficinas, de garantir a felicidade de todo mundo que estava participando.


Quais foram as surpresas negativas e positivas nesse processo?

Deu tudo certo! Isso nos alegrou um bocado. As oficinas, o mural, a roda de conversa, a chuva e o público, tudo dançou muito bem para que iniciasse e terminasse bonito. As surpresas negativas foram poucas, acho que tem tudo muito a ver com colocar os pés no chão durante a pré-produção. Saber o que podemos e não podemos fazer e aceitar que, naquele momento, é só (e tudo) aquilo que conseguimos. Isso nos faz aceitar os brilhos dos olhos mais do que negá-los.



Em toda a comunicação do M.U.R.A.L deu pra perceber um cuidado em relação ao conceito: a estética ideativa e visual, os desdobramentos nos textos, oficinas e a personalidade que vocês quiseram imprimir como um todo. Esse processo foi natural para vocês?

A função da comunicação mesmo feito de forma coletiva era coordenada pelo nosso diretor de arte, o Mario Bros:

Eu gostei muito de trabalhar o conceito de direção de arte no Festival M.U.R.A.L, porque nem sempre a gente tem o mote tão bom assim que é trabalhar lambe-lambe com a temática ‘pedra papel e tesoura: dispositivos de atravessamentos em tempos de guerra’. Então o ‘pedra, papel e tesoura’ já me parece muito uma coisa de guerra mesmo sendo uma brincadeira infantil, ai nós temos o mote visual que é mão, e é a mão que produz o lambe-lambe né. A mão que corta, cola, ilustra e etc. É muito difícil encontrar um mote tão bom pra se trabalhar. Aí foi natural a forma que as coisas foram se dividindo dentro da equipe, alguém escrevia um texto, outro alguém editava… nesse sentido existe uma naturalidade nossa, já que nós somos as pessoas que trabalhamos com o que estamos fazendo. Não é um designer contratado pra fazer as artes de um festival de lambe-lambe, mas é um artista de lambe fazendo as artes pra um festival de lambe, é um artista de lambe escrevendo um texto pra um post de um festival de lambe. Então fica impressa uma naturalidade e uma personalidade, porque é quem nós somos.


Tassila Custodes e Marina Prado. Foto: Ilana Costa

Vocês esperavam a presença de artistas de outros estados no

evento? Como se deu a chegada?


Ah, foi lindo isso. Alberto Pereira (RJ) nós já sabíamos que ele ia conseguir chegar pois foi o único que conseguimos organizar e levantar grana. O Discórdia (SP), um pouco depois, nos informou que conseguiu levantar uma grana e que também ia conseguir colar. A Silvana Mendes (MA) e a Tassila Custodes (MA) fizeram uma vakinha online pra levantar uma grana, foi foda porque a gente ficava o tempo inteiro tensos pra que elas conseguissem, mas aí conseguiram. A Kerolayne Kemblin (AM) tava de rolê em alguns estados e ainda era uma incógnita porque não dependia só dela pra chegar, mas no fim também deu certo.


Pra gente, ter 5 nomes nacionais de lambe no nosso festival foi incrível. É bonito perceber como isso se deu de forma fluida e que nossas trocas reverberaram um no outro, sabendo que tudo vai desaguar nos nossos estados. É um pouco disso que precisamos na cena do lambe, tem muita gente fazendo essa arte e essas cidades, pessoas, estados, precisam conversar mais, articular mais, estar juntes.


O quanto vocês acreditam que a iniciativa de vocês reverberou? Vocês já sentiram alguma resposta ao evento e à ação de vocês?

Percebemos que, logo depois do festival, participantes das oficinas se sentiram mais a vontade de se colocar na rua. O festival também ajudou a incentivar a produção artística voltada para o meio urbano. Os olhares estão mais sensíveis para a arte urbana e para o cenário urbano no geral. Acredito que ações como essas são fundamentais em momentos políticos como os que estamos passando. Temos essas respostas breves para o festival, mas creio que precisamos de um distanciamento histórico pra conseguir realmente enxergar o que ele foi para a cidade e para a cena de lambe nacional.


Por fim, fale o que vocês quiserem falar aqui pra fechar essa troca.

Precisamos agradecer. Agradecer ao Lambes Brasil por ter fortalecido nosso festival e ainda nos disponibilizar esse espaço de troca. Ao Museu Murillo La Greca por ter aceitado e aprovado o festival para ser realizado dentro de um espaço público que há muito nos é negado. Ao SESC Pernambuco pelo apoio na realização do nosso mural de lambe. Às artistas convidadas que vieram na garra compartilhar esses momentos tão singulares com a gente. A produtora Asa Amiga Filmes. A toda a galera que colou, participou das oficinas, deu um apoio no festival, trocou, transpassou, e construiu isso tudo com a gente.


Temos que acreditar que dá certo. O lambe-lambe tem um poder incrível dentro da urbe, vamos continuar propagando essa arte e apoiando xs artistas que o propagam.



O Lambes Brasil é um canal independente. Feito por e para artistas com o propósito de fomentar e valorizar o lambe-lambe no contexto da Arte Urbana Brasileira, fortalecer o cenário aos artistas e produtores, gerar reconhecimento da técnica e prática artística perante o público, o mercado, os órgãos governamentais, empresas, entidades culturais e demais linguagens artísticas.


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